Romantismo no Brasil: Nacionalismo e Natureza na Literatura Oitocentista

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O romantismo no Brasil representa um dos capítulos mais significativos da história literária nacional, marcando o período em que o país, recém-independente, buscava afirmar sua identidade cultural e construir uma literatura genuinamente brasileira. Surgido no início do século XIX e estendendo-se até aproximadamente 1880, o romantismo no Brasil não foi apenas um movimento literário, mas um fenômeno cultural amplo que refletiu os anseios de uma nação emergente.

A literatura produzida nesse período caracterizou-se pela exaltação da natureza exuberante brasileira, pela valorização do indígena como herói nacional e pela busca de uma linguagem que expressasse a alma brasileira. O romantismo no Brasil coincidiu com importantes transformações históricas, como a Independência (1822) e o Segundo Reinado, momentos decisivos para a formação da identidade nacional.

Este artigo explora profundamente como o nacionalismo e a representação da natureza se tornaram pilares fundamentais do romantismo no Brasil, analisando suas principais obras, autores e características que moldaram a literatura oitocentista brasileira e estabeleceram as bases de nossa tradição literária.

As Origens do Romantismo no Brasil

O romantismo no Brasil não surgiu de forma espontânea, mas como resultado de influências europeias adaptadas ao contexto local. Enquanto na Europa o movimento romântico emergiu como reação ao Iluminismo e ao Neoclassicismo, no Brasil, ele encontrou terreno fértil no momento histórico de construção da identidade nacional após a Independência.

Influências Europeias e Adaptação Nacional

O romantismo europeu, especialmente o francês, português e alemão, forneceu os modelos iniciais para os escritores brasileiros. Autores como Victor Hugo, Chateaubriand, Alexandre Herculano e Almeida Garrett eram amplamente lidos pela elite intelectual brasileira. No entanto, o romantismo no Brasil rapidamente desenvolveu características próprias, adaptadas à realidade nacional.

A publicação de “Suspiros Poéticos e Saudades” (1836), de Gonçalves de Magalhães, é considerada o marco inaugural do romantismo no Brasil. Nesta obra, já se observam elementos que seriam recorrentes na literatura romântica brasileira: o subjetivismo, a melancolia, a religiosidade e as descrições da natureza brasileira.

O Papel da Revista Niterói

A Revista Niterói, publicada em Paris em 1836 por um grupo de intelectuais brasileiros, entre eles Gonçalves de Magalhães, Manuel de Araújo Porto-Alegre e Francisco de Sales Torres Homem, também foi fundamental para estabelecer as bases do romantismo no Brasil. Com o subtítulo “Revista Brasiliense: Ciências, Letras e Artes”, a publicação defendia a necessidade de criar uma literatura nacional que refletisse as particularidades brasileiras.

Nacionalismo como Pilar do Romantismo no Brasil

O nacionalismo foi, sem dúvida, o elemento mais distintivo do romantismo no Brasil. Num país recém-independente e em busca de afirmação cultural, a literatura romântica assumiu o papel de construir uma identidade nacional própria, distinta da portuguesa.

A Busca pela Identidade Nacional

Os escritores românticos brasileiros empenharam-se em retratar aspectos que consideravam únicos e definidores da brasilidade: a natureza tropical exuberante, o passado histórico (com ênfase no período colonial) e o indígena como ancestral mítico da nação. Essa busca pela identidade nacional permeou todas as fases do romantismo no Brasil e se manifestou de diferentes formas.

O Indianismo

O indianismo foi uma das expressões mais poderosas do nacionalismo romântico brasileiro. Autores como Gonçalves Dias e José de Alencar idealizaram o indígena, transformando-o em símbolo da nação brasileira e herói nacional. O índio romântico era representado com características europeias idealizadas: nobre, cavalheiresco, corajoso e puro, em contraste com o colonizador português, frequentemente retratado como explorador e corrupto.

“I-Juca Pirama” e “Os Timbiras”, de Gonçalves Dias, são exemplos notáveis de poemas indianistas que exaltam as virtudes indígenas. Na prosa, a trilogia indianista de José de Alencar – “O Guarani” (1857), “Iracema” (1865) e “Ubirajara” (1874) – representa o auge dessa tendência, criando narrativas que mitificam a origem da nacionalidade brasileira através da união simbólica entre o elemento nativo e o colonizador europeu.

A Valorização da Língua Brasileira

Outro aspecto fundamental do nacionalismo no romantismo no Brasil foi a valorização de uma linguagem propriamente brasileira. Os escritores românticos buscaram incorporar em suas obras termos e expressões indígenas, africanismos e regionalismos, distanciando-se gradualmente do português europeu e criando uma língua literária que refletisse a realidade brasileira.

José de Alencar foi um dos grandes defensores dessa “língua brasileira”. Em seus romances e em textos críticos como “Bênção Paterna”, ele defendeu o direito dos escritores brasileiros de inovarem na linguagem, adaptando-a às particularidades da realidade nacional.

A Exaltação da Natureza Brasileira

A natureza exuberante do Brasil tornou-se um dos temas prediletos dos autores do romantismo no Brasil. Vista como símbolo da grandiosidade e da potencialidade da nação, a paisagem natural brasileira era descrita com entusiasmo e admiração, frequentemente idealizada como um verdadeiro paraíso terrestre.

A Natureza como Símbolo Nacional

Para os românticos brasileiros, a natureza não era apenas cenário, mas personagem ativa e símbolo da nacionalidade. A riqueza e a diversidade da flora e da fauna brasileiras eram contrastadas com a paisagem europeia, ressaltando a singularidade e a grandiosidade do Brasil.

Nas descrições românticas, a natureza brasileira aparece plena de cores, sons e aromas, provocando sensações intensas e despertando sentimentos sublimes. O romantismo no Brasil estabeleceu assim uma tradição de descrições paisagísticas que influenciaria profundamente a literatura posterior.

A Relação entre Homem e Natureza

A relação entre o homem e a natureza é um tema recorrente no romantismo no Brasil. Frequentemente, a natureza aparece como refúgio, como fonte de inspiração ou como espelho dos sentimentos humanos, estabelecendo uma correspondência entre a paisagem natural e os estados de alma.

Em “Iracema”, de José de Alencar, por exemplo, a protagonista indígena é descrita como parte integrante da natureza, “a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna”. A identificação entre a mulher indígena e a natureza brasileira reforça a ideia de uma nação que nasce da integração harmoniosa com o ambiente natural.

O Sertão e a Paisagem Interior

O interesse pela natureza brasileira no romantismo no Brasil não se limitou ao litoral ou às florestas tropicais. O sertão também foi tema de diversas obras, representando a busca por uma Brasil autêntico, ainda não contaminado pelas influências europeias.

Em “O Sertanejo” (1875), José de Alencar retrata a vida nos sertões cearenses, descrevendo não apenas a paisagem física, mas também os costumes e o modo de vida sertanejo. Bernardo Guimarães, em “O Garimpeiro” (1872) e “O Seminarista” (1872), também explora os cenários interioranos de Minas Gerais, contribuindo para a valorização literária de regiões até então pouco representadas.

As Fases do Romantismo no Brasil

O romantismo no Brasil costuma ser dividido em três gerações ou fases, cada uma com características distintas, embora o nacionalismo e a valorização da natureza permeiem todas elas.

Primeira Geração: Nacionalismo e Indianismo

A primeira geração do romantismo no Brasil (1836-1852) caracterizou-se pelo forte nacionalismo e pelo indianismo. Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias e o jovem José de Alencar são os principais representantes desta fase.

Gonçalves Dias, considerado o maior poeta romântico brasileiro, produziu obras que são verdadeiros monumentos ao nacionalismo literário, como “Canção do Exílio”, onde a natureza brasileira é exaltada em contraposição à europeia: “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá; as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá.”

Segunda Geração: Ultrarromantismo

A segunda geração romântica (1852-1870), também conhecida como ultrarromantismo ou mal-do-século, foi marcada por um profundo subjetivismo, pela melancolia e pela temática da morte. Embora menos explicitamente nacionalista, esta geração também contribuiu para a construção da identidade literária brasileira, explorando uma sensibilidade particular.

Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Junqueira Freire e Fagundes Varela são os principais representantes desta fase. Em suas obras, a natureza frequentemente aparece como cenário noturno, misterioso, refletindo os estados de alma atormentados dos poetas.

Terceira Geração: Condoreirismo e Crítica Social

A terceira geração do romantismo no Brasil (1870-1880), também chamada de condoreira, retomou o engajamento político e social, abordando temas como a abolição da escravatura e o republicanismo. Castro Alves, o “poeta dos escravos”, é o maior expoente desta fase.

Em poemas como “O Navio Negreiro” e “Vozes d’África”, Castro Alves denuncia a escravidão e utiliza imagens da natureza para expressar tanto a beleza do continente africano quanto o sofrimento dos escravizados. A natureza, neste contexto, deixa de ser apenas símbolo nacional para tornar-se palco de reflexões sociais e humanitárias.

Principais Autores e Obras do Romantismo no Brasil

O romantismo no Brasil produziu um conjunto impressionante de autores e obras que estabeleceram as bases da literatura nacional. A seguir, destacamos alguns dos mais importantes:

Gonçalves de Magalhães (1811-1882)

Considerado o introdutor do romantismo no Brasil, Domingos José Gonçalves de Magalhães publicou “Suspiros Poéticos e Saudades” (1836), obra que marca o início oficial do movimento romântico no país. Também escreveu o poema épico “A Confederação dos Tamoios” (1856), que narra a resistência indígena contra os colonizadores portugueses.

Gonçalves Dias (1823-1864)

Antonio Gonçalves Dias é considerado o maior poeta do romantismo no Brasil. Sua obra caracteriza-se pelo nacionalismo, pelo indianismo e pela nostalgia da terra natal. Entre seus principais trabalhos estão “Primeiros Cantos” (1846), “Segundos Cantos” (1848), “Últimos Cantos” (1851) e os poemas épicos “Os Timbiras” e “I-Juca Pirama”.

A “Canção do Exílio”, talvez seu poema mais famoso, expressa de forma magistral o amor à pátria distante e a exaltação da natureza brasileira, tornando-se um verdadeiro símbolo do nacionalismo romântico.

José de Alencar (1829-1877)

O maior prosador do romantismo no Brasil, José de Alencar produziu uma obra vasta e variada que buscava retratar o Brasil em suas múltiplas facetas. Seus romances são geralmente classificados em:

  • Romances Indianistas: “O Guarani” (1857), “Iracema” (1865) e “Ubirajara” (1874), que idealizam o indígena e narram o encontro entre nativos e colonizadores.
  • Romances Regionalistas: “O Gaúcho” (1870), “O Tronco do Ipê” (1871), “Til” (1872) e “O Sertanejo” (1875), que exploram diferentes regiões e costumes do Brasil.
  • Romances Urbanos: “Lucíola” (1862), “Diva” (1864) e “Senhora” (1875), que retratam a sociedade brasileira do Segundo Reinado, especialmente a vida na corte.

Álvares de Azevedo (1831-1852)

Principal representante da segunda geração do romantismo no Brasil, Manuel Antônio Álvares de Azevedo produziu uma obra marcada pelo pessimismo, pela obsessão com a morte e pela influência de autores como Byron e Musset. Sua principal obra é “Lira dos Vinte Anos” (1853), publicada postumamente, onde desenvolve uma poética da dualidade entre o angelical e o demoníaco.

Castro Alves (1847-1871)

Antônio Frederico de Castro Alves, o “poeta dos escravos”, destacou-se na terceira geração do romantismo no Brasil por sua poesia engajada e pela defesa da abolição da escravatura. Suas principais obras são “Espumas Flutuantes” (1870), único livro publicado em vida, e os poemas “O Navio Negreiro” e “Vozes d’África”, que denunciam os horrores da escravidão.

O Legado do Romantismo para a Literatura Brasileira

O romantismo no Brasil deixou um legado duradouro para a literatura nacional, estabelecendo temas, formas e preocupações que influenciariam gerações posteriores de escritores.

Consolidação da Literatura Nacional

O maior legado do romantismo no Brasil foi, sem dúvida, a consolidação de uma literatura genuinamente nacional. Ao valorizar elementos brasileiros e buscar formas de expressão próprias, os românticos estabeleceram as bases para uma tradição literária independente da portuguesa.

Influência sobre Movimentos Posteriores

Mesmo movimentos que surgiram em oposição ao romantismo, como o Realismo e o Modernismo, dialogaram intensamente com a tradição romântica. O regionalismo de José de Alencar, por exemplo, seria retomado e aprofundado por autores como Euclides da Cunha e Guimarães Rosa.

O nacionalismo romântico, por sua vez, ressurgiria transformado no Modernismo de 1922, movimento que, como o Romantismo, buscou redefinir a identidade cultural brasileira, embora com novos pressupostos estéticos e ideológicos.

Permanência de Temas e Motivos

Muitos dos temas e motivos introduzidos pelo romantismo no Brasil permanecem vivos na literatura contemporânea: a representação da diversidade regional brasileira, o diálogo entre tradição e modernidade, a questão da identidade nacional e a relação entre homem e natureza.

O indianismo romântico, por exemplo, seria revisitado criticamente por autores do século XX como Mário de Andrade em “Macunaíma” e Darcy Ribeiro em “Maíra”, demonstrando a vitalidade dos temas introduzidos pelo romantismo no Brasil.

Conclusão

O romantismo no Brasil representou muito mais que um movimento literário: foi um projeto cultural e político de construção da identidade nacional. Ao exaltar a natureza brasileira e buscar raízes autóctones para a nacionalidade, os românticos contribuíram decisivamente para forjar uma consciência nacional e uma tradição literária própria.

A literatura oitocentista produzida durante o período romântico estabeleceu um diálogo entre o local e o universal, adaptando influências europeias à realidade brasileira e transformando elementos nativos em símbolos com ressonância universal. O indianismo, o regionalismo e a valorização da natureza foram estratégias que permitiram aos escritores românticos expressar a especificidade brasileira sem se isolar do contexto cultural mais amplo.

O romantismo no Brasil, com sua ênfase no nacionalismo e na representação da natureza, não apenas consolidou a literatura brasileira como campo autônomo, mas também estabeleceu um repertório de temas, imagens e preocupações que continuaria a alimentar a produção literária nacional até os dias atuais. Seu legado permanece vivo e pulsante, lembrando-nos da importância da literatura na construção e na reflexão sobre a identidade nacional.


FAQ: Romantismo no Brasil

1. Quando surgiu o romantismo no Brasil e qual foi seu marco inicial?

O romantismo no Brasil surgiu nas primeiras décadas do século XIX, tendo como marco inicial a publicação de “Suspiros Poéticos e Saudades” (1836), de Gonçalves de Magalhães. O movimento estendeu-se aproximadamente até 1880, coincidindo com o período pós-independência e o Segundo Reinado.

2. Quais são as principais características do romantismo no Brasil?

As principais características do romantismo no Brasil incluem: nacionalismo e busca pela identidade nacional; valorização e idealização da natureza brasileira; indianismo como expressão de raízes nacionais; subjetivismo e individualismo; idealização amorosa; linguagem mais livre e próxima à fala brasileira; e engajamento social, especialmente na terceira geração.

3. Quem foram os principais autores do romantismo no Brasil?

Os principais autores do romantismo no Brasil foram: Gonçalves de Magalhães e Gonçalves Dias (primeira geração); Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu e Fagundes Varela (segunda geração); Castro Alves (terceira geração); e José de Alencar (principal prosador romântico brasileiro).

4. Como o indianismo se manifestou no romantismo brasileiro?

O indianismo manifestou-se através da idealização do indígena como herói nacional e ancestral mítico do povo brasileiro. Nas obras de Gonçalves Dias (“I-Juca Pirama”) e José de Alencar (trilogia “O Guarani”, “Iracema” e “Ubirajara”), o índio é representado com características nobres e europeizadas, simbolizando as origens da nacionalidade brasileira.

5. Como a natureza brasileira foi retratada pelos autores românticos?

A natureza brasileira foi retratada pelos românticos de forma exuberante e idealizada, frequentemente como símbolo da grandiosidade e potencialidade do país. As descrições destacavam cores vibrantes, diversidade de flora e fauna, e estabeleciam paralelos entre a natureza e os sentimentos humanos. A natureza funcionava também como elemento de afirmação da identidade nacional.

6. Qual foi a contribuição do romantismo para a formação da literatura brasileira?

O romantismo contribuiu decisivamente para a formação da literatura brasileira ao estabelecer uma tradição literária independente da portuguesa, valorizar elementos nacionais (natureza, costumes, linguagem), criar uma mitologia nacional através do indianismo, e explorar a diversidade regional brasileira. O movimento estabeleceu temas e preocupações que influenciariam movimentos literários posteriores e permanecem relevantes na literatura contemporânea.

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